Iluminados por Matisse e pelo sol da Riviera Francesa

July 03, 2018  •  Leave a Comment

Hoje, escrevo pra vocês daqui da França, onde eu e o Jaiel viemos fazer ensaios nos campos de lavandas e girassóis e, claro, também nos inspirar, beber da mesma fonte que grandes mestres das artes. Uma experiência muito rica para nós dois como fotógrafos, como artistas também. Até a manhã desta segunda-feira estivemos percorrendo a Riviera Francesa, passeando por Nice, Cannes, Mônaco. Passamos por uma cidadezinha medieval que nunca tínhamos ouvido falar e achamos pelo caminho: a cidade de Eze e foi muito legal. Essa região toda aqui foi muito frequentada pelos pintores no final do século XIX e começo do século XX, tanto do Impressionismo tanto pelos que vieram na sequência, especialmente o movimento do Fauvismo, que foi liderado pelo Matisse no início do século XX, mas especificamente por volta de 1905.

E eu gostaria de dividir com vocês uma experiência em especial, a da visita que fizemos ao Museu de Henri Matisse, em Nice. Esse museu foi basicamente montado com obras doadas pela família dele e por ele próprio, que viveu bastante, até a década de 50 com uns 80, 90 anos e produzindo até o final. O museu é organizado de maneira cronológica, quase didática, para mostrar essa trajetória que ele fez desde o inicio até o final, quando as obras já eram praticamente traços.


Eu acho muito legal conhecer um pouquinho da história do pintor, da relação dele com a arte. O Matisse vinha de uma família muito bem de vida, tinha bastante dinheiro e começou a vida estudando Direito. Mas ele viu logo cedo que não era aquilo que ele queria, que estava infeliz e tinha muita vocação para as artes. Então, resolveu ir para Paris estudar na Escola de Belas Artes. Tem inclusive um quadro que ele pintou nessa fase, quando tinha uns 20 anos de idade, que mostra os livros de Direito dele e que ele considera sua primeira obra.Era uma escola bastante rígida, com as regras da pintura clássica. Na época, os grandes ícones do Impressionismo já estavam desafiando os cânones da Academia de Belas Artes, mas  foi lá que Matisse começou. Nos primeiros quadros que ele pinta dá pra ter uma ideia de onde ele tá vindo, das cores escuras, do cinza, do realismo.

 

Mas, muito cedo, ele casa e vai morar no Sul da França e fica impressionado com a luz, com a luminosidade do lugar. Aliás, esse é o principal motivo pelo qual os pintores gostavam tanto dessa região e vinham muito pra cá para pintar, buscar paisagens, cenas, iluminar os modelos, porque é uma região bastante ensolarada.
E, já no começo, nos primeiros anos, a gente vê como Matisse vai mudando aos poucos, vai introduzindo mais cores, mais luz na sua obra. Ele fica muito encantado com a energia da luz, que se manifesta e que ele representa por meio das cores vibrantes, intensas, cada vez mais.

Nesse caminho de sair do Classicismo tradicional, de ir se libertando, entrando nas cores, ele flerta com o Impressionismo, chega a fazer algumas coisas - até com o Pontilhismo - experimenta vários estilos e várias coisas novas e ele, na verdade, acaba sendo considerado líder do Fauvismo, que é um movimento artístico muito ligado às emoções, aos sentimentos. Ele busca menos a tridimensionalidade da tela, ele considera a tela como um plano, apenas com duas demissões: largura e altura. Os retratos das mulheres são planos chapados, carregados nas cores e muito com essa coisa de transmitir emoção e sentimento. Isso tudo tem muito da influência do Expressionismo, do van Gogh. 

Teve a influência também do Paul Gauguin, que tinha o Primitivismo, que na época pintava aquelas paisagens do Taiti, para onde ele tinha viajado. O Matisse estava indo nesse caminho e conheceu o Picasso, com quem manteve intensa interatividade, apesar de ser uns 10, quase 15 anos mais velho que ele. Mas os dois tinham uma rivalidade e uma colaboração muito grande. Até outubro está acontecendo uma exposição de Matisse e Picasso que mostra como, por várias vezes, os dois pintaram os mesmos temas ou fizeram interpretações diferentes sobre a mesma coisa, a mesma pose, a mesma situação, tanto nos quadros quanto nas esculturas - ambos eram escultores também. E é interessante perceber que, normalmente, as esculturas do Picasso são feitas depois que as do Matisse, isso mostra justamente essa dualidade, essa maneira dos dois trabalharem.

O Matisse começa a ir cada vez mais nessa busca de expressar seu próprios sentimentos, da coisa mais selvagem, mais natural, no sentido de como as cores saíam da sua prancheta e de como ele utilizava as cores e as formas. Então, a gente consegue ir vendo um pouco da obra dele, dá pra fazer um recorte e ver como ele foi desenvolvendo o estilo artístico dele. O Fauvismo recebeu esse nome que vem da palavra "fauve", que significa fera em francês, justamente por esse caráter mais primitivo das obras, que tem as pinturas mais vigorosas, menos detalhadas, menos acadêmicas. O nome foi dado depois que o crítico de arte Louis Vauxcelles visitou a exposição de pintura do Salão de Outono de 1905, em Paris. Ele viu a cena de uma obra no estilo clássico-renascentista que estava cercada por várias obras que ele considerada agressivas. Ele citou que a figura do menino estaria cercada por feras "fauve". Isso inicialmente foi uma crítica degenerativa, algo ruim, mas esse termo pegou e fazia sentido realmente com a ideia que o Matisse e vários outros artistas que acabaram seguindo essa linha também.

O que nem todo mundo sabe e que o museu mostra é que Matisse também fotografava. Suas fotografias não são muito conhecidas, ele nunca divulgou, mas ele fotografou praticamente todas as modelos que posaram pera ele. Eu acho muito interessante a relação entre a pintura e a fotografia, especialmente nessa época do Impressionismo, como elas se misturam muitas vezes, inclusive no processo criativo dos pintores. Eu acho isso muito importante para entender as artes, as obras dos pintores. É muito importante para quem ama a fotografia, para quem quer conhecer e entender melhor a fotografia, ver como a pintura e a fotografia estão intimamente ligadas. Fotografar é pintar com a luz. É a mesma coisa. O pintor representa a imagem com pincéis e nós, fotógrafos, usamos a câmera, o filme e, hoje em dia, o computador. São os instrumentos para capturar o que a luz está trazendo para nossos olhos. Parte da exposição traz também fotografias mostrando o pintor e a modelo enquanto o pintor estava trabalhando. Você consegue até ver o rascunho, a obra que ele estava fazendo, enquanto a modelo posava pra ele. É quase um making of. Tem fotografias de Henri Cartier Bresson, de Brassai ... De fotógrafos muito feras que contribuíram e fotografaram esses gênios trabalhando.

Enfim, foi uma visita muito rica. Vale demais a pena pra quem gosta das artes, da fotografia, da pintura. É muito enriquecedor. Uma experiência que, em parte nos toca na construção do nosso repertório, algo que todo artista deve ter e, em parte nos traz esse lindo desafio de enxergar e capturar a luz pela qual um artista como Matisse e tantos outros mestres se encantaram. Essa luz pela qual ele se apaixonou a ponto de escolher morar aqui só para poder acordar todos os dias com ela. Nos sentimos iluminados pela luz de Matisse e da Riviera Francesa. Seguimos ainda mais apaixonados por nossa missão de enxergar essa luz e transformá-la em arte.

A viagem continua. Na próxima semana eu conto mais.
Um abraço,
Simone Silvério.


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